Primeiro doutorado da EACH trata de sustentabilidade na indústria têxtil e da moda

Brasil teve, em 2015, uma produção têxtil de 1,8 milhões de toneladas. Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Segundo dados da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecções, o Brasil teve, em 2015, uma produção têxtil estimada de 1,8 milhões de toneladas. Isso coloca o país como o quinto maior produtor do mundo no setor. Essa posição, no entanto, tem suas consequências – a cadeia de produção têxtil  e de confecções gera uma grande quantidade de resíduos sólidos. Com o crescente interesse público pela redução dos impactos ambientais das atividades humanas, o tema vem sendo cada vez mais colocado em pauta.

Da primeira turma do curso de Têxtil e Moda da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP, Welton Fernando Zonatti começou a se interessar pelo tema na graduação, durante a disciplina de Resolução de Problemas. No mestrado em Têxtil e Moda, o interesse persistiu. Em 2016, tornou-se o primeiro aluno do Programa da Pós-Graduação da EACH a defender uma tese de doutorado, cujo título é Geração de resíduos sólidos da indústria brasileira têxtil e de confecções: materiais e processos para reuso e reciclagem.

Zonatti explica que o problema da geração de resíduos sólidos associada ao consumo de produtos têxteis é muitas vezes subestimado. “Isso é uma coisa que não é muito divulgada. Temos resíduos sólidos que são gerados na indústria têxtil, na confeccionista, no setor de varejo e também no pós-consumo, que é o descarte doméstico de roupas”.

Na indústria têxtil, apesar do reaproveitamento cíclico de fibras nos processos, há ainda uma pequena geração de sobras que não são utilizadas. Na confeccionista – em que as roupas são feitas – são produzidas, em média, 175 mil toneladas de aparas têxteis por ano oriundas do corte de tecidos, de acordo com o Sindicato das Indústrias de Fiação e Tecelagem do Estado de São Paulo. Dessas 175 mil toneladas, somente 20% vai para reciclagem. Para além disso, as peças de vestuário que sobram no varejo de moda são vendidas em bazares, descartadas em aterros sanitários ou incineradas. Por último, muitas roupas inutilizadas também são descartadas pelos consumidores finais em lixo doméstico, que também acabam em aterros.

Para a metodologia de sua dissertação, Zonatti realizou um levantamento bibliográfico sobre a geração de resíduos sólidos e processos de reuso e reciclagem na indústria têxtil e de confecções; entrevistas com profissionais do setor; e visitas técnicas em diferentes indústrias recicladoras. Adicionalmente, utilizou o software SolidWorks para análise dos impactos ambientais da extração de duas fibras sintéticas muito utilizadas mundialmente, a poliamida e o poliéster. Os dados de impacto da extração da fibra de algodão foram obtidos por meio da revisão de literatura.

“Não temos muitos dados sobre reuso e reciclagem, porque não temos uma cadeia, uma logística reversa fortemente estabelecida, o que dificulta [a promoção de] política públicas, de programas voltados para o reuso e reciclagem têxtil e que novas empresas e indústrias recicladoras apareçam”. Apesar de um projeto de lei 657 de 2013, do deputado estadual  Chico Sardelli (Partido Verde – SP), ainda em tramitação, os esforços do setor público para uma indústria têxtil e de confecções mais verde não são promissores no Brasil.  Neste PL, os fabricantes do Estado de São Paulo que utilizarem materiais têxteis reciclados em sua produção teriam incentivos fiscais.

Além dos problemas estruturais da cadeia produtiva da indústria têxtil e de confecções, há ainda outros empecilhos. O modo de produção inadequado da maior parte da indústria inviabiliza o reaproveitamento de restos têxteis. Depois do corte dos tecidos nas confecções, as sobras são misturadas entre si, não havendo diferenciação de composição da matéria-prima ou de cor, assim como são misturadas com outros tipos de resíduos sólidos e matéria orgânica. Assim, as sobras têxteis não podem ser eficientemente reaproveitadas, restando o somente o descarte como alternativa final. Além disso, essa contaminação pode ter complicações para o meio ambiente e para os consumidores.

Segundo Zonatti, há atualmente quatro principais processos de reciclagem têxtil utilizados. No mecânico, o mais comum deles, o tecido é destrinchado, enfardado e expedido para que outras empresas possam criar novos fios para outros produtos. Na reciclagem química, os restos têxteis sintéticos são dissolvidos. Na térmica, o material descartado é queimado para a produção de energia. Existe ainda o processo em que duas dessas técnicas são utilizadas, chamado mix de tecnologias. “Há diversas aplicações desse têxtil reciclado que não necessariamente é o vestuário, você pode ter usos em outras indústrias”, complementa Zonatti.

Seja pelo viés econômico ou ideológico, Zonatti acredita que uma prática mais sustentável na indústria têxtil e de confecções favorece tanto as empresas quanto o meio ambiente. O aproveitamento racionalizado de insumos gera menos custos, de um lado, e menos impactos, de outro. “Quando a empresa age economicamente de um modo inteligente, direta ou indiretamente ela também favorece o meio ambiente, minimizando seus impactos”.

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