Jogo sobre processos de formação do solo ensina Geociências de forma lúdica

Aplicação do jogo Bogicca no Congresso Brasileiro de Geologia. Crédito: Fernanda Coyado Reverte

Em um projeto desenvolvido na  disciplina de Recursos Didáticos do curso de Licenciatura em Geociências, a pesquisadora Fernanda Coyado Reverte, atualmente doutoranda do Instituto de Geociências da USP, propôs um recurso alternativo para facilitar o ensino de Geologia para crianças do ensino básico e fundamental. Observando os alunos discutirem sobre quem era dono da terra, ela teve a ideia de criar um jogo que apresentasse, de forma lúdica, a constituição e processos de formação do solo. Intitulado Bogicca – em homenagem ao professor Dr. Paulo César Boggiani, responsável pela disciplina naquele semestre – o jogo foi aplicado a crianças entre 7 e 11 anos da ONG Acorde, em Embu das Artes, São Paulo. O projeto foi ampliado e adaptado para outros públicos, tendo sido exposto no Congresso Brasileiro de Geologia, em Santos e também na Universidade de Coimbra, em Portugal.

De acordo com Fernanda, o conteúdo do jogo foi desenvolvido em conjunto com os alunos. A cada dia, a pesquisadora levava para a ONG rochas, minerais e vídeos explicativos disponibilizados pelo Museu de Geociências do IGc e, com eles, explicava sucintamente processos como degradação de rochas, intemperismo e tempo geológico. “Trabalhava os temas com base nos materiais levados e dentro do contexto da comunidade em que as crianças viviam”, detalha a pesquisadora.

A escolha de criar um jogo, e não outro recurso didático, como maquetes ou folhetos, foi motivada pelo fato de que nem todos os alunos da ONG, ainda que em idade de alfabetização, sabiam ler. A avaliação do aprendizado das crianças também foi diferenciada, já que as crianças fizeram desenhos do que tinham aprendido com as informações fornecidas pelo jogo. “Eles desenharam a rocha, as fraturas se formando, formigas e minhocas andando por essas fraturas, a chuva, o sol e os anos se passando. Para mim, eles entenderam como o solo se forma”, diz Fernanda.

Funcionamento do jogo

Reprodução do tabuleiro do jogo. Crédito: Fernanda Coyado Reverte

O jogo Boggica é composto por um tabuleiro no qual três jogadores podem brincar a cada rodada. Cada um tem o ponto de partida em um tipo de rocha – sedimentar, ígnea e metamórfica – e o vencedor será o que chegar primeiro ao solo. Ao longo do trajeto, os jogadores passam por casas em que recebem informações sobre cada rocha e, nas casas identificadas com um ponto de interrogação, devem tirar uma carta de sorte ou revés, que  trará informações sobre processos de formação do solo e ações humanas que podem beneficiar ou prejudicar o meio ambiente. Quando o jogador cai em “você está atolado”, deve responder a uma pergunta relacionada à Geociências para poder continuar a jogar.

Após a experiência bem-sucedida com as crianças na ONG Acorde, Fernanda elaborou cartas com diferentes níveis de dificuldade e o jogo foi reproduzido em tamanho gigante – 16 metros quadrados –, para ser utilizado na Praia das Geociências, anexo do 46º Congresso Brasileiro de Geologia. “O nível fácil era voltado para as crianças que estavam visitando o Congresso com as escolas e o nível difícil, para adultos, continha gráficos e tratava de assuntos que vemos no ensino superior, como os tipos de metamorfismo e processos de diagênese”, explica. Com isso, o jogo foi levado pela pesquisadora à Universidade de Coimbra, e lá pôde apresentar o contexto do ensino da geologia no Brasil. “Enquanto as crianças brasileiras aprendem pouco disso, em Portugal esse ensino é comum. Eles têm geologia na escola e aula de mapeamento com bússola aos dez anos de idade. Aqui, nós só pegamos em uma bússola na universidade”, conta.

Necessidade de aproximar a Geociências das crianças

Ainda que a temática da Geociências esteja contemplada no Plano Curricular Nacional (PCN) como subárea de Geografia, Ciências e Biologia, Fernanda conta que o ensino é deficitário, principalmente nas escolas públicas. “Há uma defasagem muito grande no ensino de Geociências. Poucas pessoas sabem que quase tudo o que usamos, o que comemos, e até na composição dos celulares e eletrodomésticos têm geologia envolvida. Isso é essencial, mas pouco divulgado”, pontua a pesquisadora. Ela defende que a geologia deve ser apresentada às crianças de forma lúdica: “Tem que levar para as crianças de uma forma que aproxime da realidade em que elas vivem”.

As crianças, de acordo com a pesquisadora, quando desenvolvem interesse pela ciência, tendem a transmitir as informações recebidas para os familiares, difundindo o conhecimento. “É muito gratificante instigar a curiosidade das crianças pela ciência. Foi o que aconteceu com o jogo”. Ela relata que, quando iniciou o projeto na ONG, as crianças estavam pouco interessadas, mas com o uso de recursos atrativos para eles, envolveram-se nas atividades. “Eles começaram a trazer material para mim. Quando encontravam uma pedra na rua, mostravam e me pediam para falar qual pedra era e quanto tempo demoraria para formar o solo”.

Fernanda tem planos de continuar a trabalhar com Bogicca, envolvendo-o em um projeto de formação de professores em andamento no Núcleo de Apoio à Pesquisa em Patrimônio Geológico e Geoturismo (GeoHereditas) da USP. Desta forma, poderá ter retornos mais precisos a respeito da aplicação do jogo em escolas. “Seria mais uma forma de difundir o conhecimento por meio de um projeto de extensão, contribuindo, assim, com a sociedade de alguma forma”.

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