Tratamento de água com algicidas prejudica o ecossistema dos reservatórios

Cerca de 80% da área do sedimento da Guarapiranga se encontra em situação ecotoxicológica ruim ou muito ruim, de acordo com pesquisa

Imagem: Dida Sampaio / Estadão Notícias

Para Marcelo Pompêo, professor do Departamento de Ecologia do Instituto de Biociências da USP, o Estado possui recursos técnicos suficientes para prever crises hídricas a longo prazo, assim como total capacidade para evitá-las a tempo. “O Estado sabe avaliar o quanto de água que entra, sai e sobra no sistema. Pode fazer previsões a longo prazo, tomar decisões previamente. Se falta água, não é por falta de conhecimento técnico. É por motivos políticos”, afirma. Pompêo é mestre em Engenharia Hidráulica e Saneamento e doutor em Ciências da Engenharia Ambiental pela Universidade de São Paulo. Hoje lidera estudos em diversos reservatórios paulistas, medindo e mapeando a qualidade de suas águas e sedimentos.

Com a proximidade das eleições e em despedida do cargo de governador do estado de São Paulo, Geraldo Alckmin não se poupa de discursos sobre a superação da crise hídrica dos últimos anos. Entre informações por vezes questionáveis e por outras omitidas, o ex-governador afirma que as políticas públicas aplicadas em seu mandato conseguiram vencer “uma seca que foi a maior dos últimos cem anos” na região.

Os posicionamentos do governo tucano em relação à falta de água foram inconstantes desde o despontar da crise, no início de 2014. Para a desventura de Alckmin, que se preparava para a reeleição que ocorreria no mesmo ano, técnicos já alertavam para o perigo da seca. No entanto, durante todo o ano eleitoral, ele negou qualquer possibilidade de racionamento ou de crise. Enquanto isso, a população de regiões afastadas e de topografia mais alta já sentiam os primeiros indícios do que mais pra frente iria estourar em tantas outras regiões. Foi somente em janeiro de 2015 que a existência de um racionamento foi finalmente admitida pelo governante.

Falta de políticas públicas é a base do problema

Pompêo critica a busca por água em outros locais como principal solução. Ele diz que raramente o governo demonstra interesse na preservação dos recursos disponíveis e que há maior custo na captação e transporte de água quanto mais distante do local de oferta . A Sabesp perdeu 32,8% da água já tratada em 2013, de acordo com o SNIS (Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento), seja por vazamentos ou desvios clandestinos. Isso pode representar de 17 a 21 m³/s a menos, aproximadamente o mesmo volume produzido hoje por três ou quatro Guarapirangas. “Conseguindo resolver o problema de monitoramento e de troca das redes antigas por novas, a redução do percentual de perda já supriria grande parte da demanda e a necessidade de se buscar água nova”, explica o pesquisador.

A falta de políticas de Estado continuadas também é alvo de reclamações. “Não se pode pensar 2030 em 2030. É preciso pensar 2030 em 2015”, diz. Ele alerta para a necessidade de um planejamento estratégico a longo prazo, com clareza, transparência e comunicação – tanto entre gestores e corpo técnico como entre governo e população. “O problema não é captar água, mas fazer a gestão da água que já existe de forma mais eficiente.”

E as críticas vão além: o pesquisador considera o modelo de gestão da Sabesp naturalmente falho. A empresa possui economia mista e capital aberto, com ações nas bolsas de valores de Nova York e São Paulo. A maioria das ações pertence ao governo do Estado e as restantes são negociadas. “Para o acionista, a empresa tem que fazer as maiores vendas possíveis em quantidade, nos maiores preços possíveis e com os menores investimentos possíveis, para que ele ganhe o máximo possível”, diz Pompêo.

A população sofre com o descaso. E a natureza também

Faixa de poluição na represa Billings em fevereiro de 2015 (Imagem: Paulo Whitaker / Reuters)

Os reservatórios de água são construídos em regiões afastadas da região metropolitana, em locais preservados que possibilitariam, em tese, uma maior sobrevida aos mananciais. Mas o Estado não cumpre com a sua obrigação de preservar estas áreas, permitindo a crescente ocupação irregular do entorno dos reservatórios e, por consequência, o despejo ali de uma grande quantidade de esgoto sem tratamento.

Este esgoto, rico em nutrientes como o fósforo e o nitrogênio, gera o processo de eutrofização nos mananciais. Isso significa o aumento ou diminuição da população de determinadas espécies nas águas e um grande potencial de desequilíbrio ecológico. Seres planctônicos, como algas e cianobactérias, por exemplo, costumam sofrer uma reprodução explosiva na presença de grandes quantidades de nutrientes.

Além de dificultar ainda mais o processo de tratamento de água, a proliferação de organismos vivos em grandes quantidades pode gerar graves problemas de saúde pública. Pompêo destaca os potenciais tóxicos das cianobactérias, que podem e já levaram indivíduos à morte.

Em fevereiro de 1996, um episódio marcante conhecido como “tragédia da hemodiálise” foi o grande motivador para a atenção redobrada que as autoridades hoje destinam aos reservatórios. Quase 60 pessoas morreram, vítimas de água contaminada por cianobactérias, após passarem pelo tratamento por hemodiálise oferecido pelo SUS em uma clínica de Caruaru. As mortes ocorreram devido ao contato dos indivíduos em tratamento com as toxinas produzidas pelas cianobactérias, neste caso a microcistina.

Algicidas: usados em excesso, prejudicam o ecossistema

A presença de cianobactérias nas águas de reservatórios é natural, e não necessariamente prejudicial à saúde humana. Mas o despejo intenso de resíduos orgânicos sem tratamento, em particular de nitrogênio e fósforo, pode permitir um crescimento explosivo destes e de outros organismos.

Para Marcelo Pompêo, as soluções são duas: a primeira, mais óbvia, seria a implantação de estações de tratamento de esgoto que contemplem os habitantes da região. A outra solução seria um tratamento já dentro dos reservatórios. “O Brasil resolveu tratar dentro. Nos reservatórios Billings e Guarapiranga, por exemplo, há mais de 40 anos, são feitas aplicações de sulfato de cobre pentahidratado, e há cerca de 20 anos é aplicado o peróxido de hidrogênio. Ambos, quando jogados na água, impedem o crescimento de algas. São compostos conhecidos como algicidas.”

Como algicidas, os produtos escolhidos cumprem o seu papel. No entanto, eles deixam grandes marcas no ambiente ao serem aplicados em grandes quantidades. A interação do sulfato de cobre pentahidratado com a água gera resíduos do metal cobre que se alocarão no fundo dos reservatórios. “O cobre é potencialmente tóxico à biota a partir de certas concentrações”, diz o pesquisador. “No reservatório Guarapiranga, dos dados retirados de relatórios da Cetesb, em um ano podem ser aplicadas cerca de 400 toneladas de sulfato. São aproximadamente 100 toneladas só do elemento cobre em um único ano. Imagine isso durante 40 anos de aplicações.”

Mapeando a toxicidade dos reservatórios paulistas

Iniciando as análises em Guarapiranga, Marcelo Pompêo e seu orientando, Philipe Riskalla Leal, fizeram uma extensa coleta do material encontrado no sedimento superficial de diversos pontos do reservatório. A análise foi quantificada e mapeada de acordo com critérios canadenses de avaliação da qualidade ecotoxicológica, com base na concentração de cobre. E o resultado foi assustador: mais de 80% da área do sedimento superficial do reservatório se encontra em situação ruim ou muito ruim, ou seja, tóxica para a biota. Com a aplicação continuada dos algicidas, a tendência é, no mínimo, manter ou ampliar a área com elevados níveis de toxicidade potencial.

Da esquerda para a direita: pontos de coleta para análise, quantificação de cobre no sedimento e mapeamento da qualidade ecotoxicológica de Guarapiranga

Desde quando a falta de água afetou o fornecimento do Sistema Cantareira, Guarapiranga passou a atender às necessidades de muito mais gente. Por conta disso, a preocupação sobre o controle das algas e cianobactérias cresceu ainda mais. “Inicialmente, a aplicação [de sulfato e peróxido] era feita com um único barco da Sabesp. Hoje são usados inúmeros barcos, tanto para as aplicações de algicidas como para a coleta de lixos e plantas flutuantes”, conta Pompêo. Isso evidencia a preocupação crescente da empresa com a qualidade da água da represa.

Decorrente do trabalho inicial realizado por Philipe Riskalla Leal, a pesquisa hoje se estende para quatro outros reservatórios do Estado: o Braço Rio Grande, do Complexo Billings, que também possui um histórico de décadas de aplicação dos algicidas; as represas do Broa (Itirapina, SP) e de Itupararanga (Ibiuna, SP), ambas sem histórico de aplicações de algicidas; e a barragem Paiva Castro (Mairiporã, SP), o último reservatório do Sistema Cantareira e com histórico de aplicações mais recentes. Complementarão os estudos testes de toxicidades em laboratório com os sedimentos de todos os reservatórios.

A aplicação de algicidas é a solução mais econômica?

O sulfato de cobre pentahidratado e o peróxido de hidrogênio são soluções mais baratas e efetivas à curto prazo para o extermínio de algas. Mas a longo prazo elas podem se revelar tão ou mais caras do que soluções que teriam efetividade ainda maior. Pompêo estima que a compra, o transporte e a aplicação dos algicidas nos últimos 40 anos em Guarapiranga tenha custado cerca de 120 milhões de dólares.

“Se ao invés de tantos anos de aplicação nós tivéssemos construído e operado uma estação de esgoto, o custo não seria muito diferente”, explica. “Mas é preciso levar em conta que, ao fazer a aplicação e deixando o fundo do reservatório do jeito que observamos, estamos perdendo outros serviços que o ecossistema pode nos oferecer. Poderíamos fazer praias públicas, áreas de lazer para a população, por exemplo.”

Aplicar dinheiro na base do problema, o saneamento básico, é um processo de economia em cadeia. Significa reduzir os gastos no pós-tratamento da água, mas é também reduzir gastos com saúde, por exemplo. É investir na qualidade do ecossistema local e no bem estar da população.

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