Jogo de tabuleiro promove reflexão sobre violência contra a mulher

Game Violetas permite que tema seja discutido entre profissionais envolvidos no atendimento de mulheres em situação de violência

Crédito: Laura Raffs

Após comprovada a funcionalidade da dinâmica e mecânica do jogo de tabuleiro Violetas: Cinema & Ação no Enfrentamento da Violência de Gênero, a pesquisadora Lucimara Fornari, da Escola de Enfermagem da USP, investiga seu potencial em promover uma educação crítica e emancipatória, capaz de gerar uma reflexão sobre a violência de gênero entre os jogadores.

A pesquisadora acaba de realizar a coleta de dados, através de Oficina de Trabalho Crítico-Emancipatória, que envolve discussões individuais e coletivas entre os participantes. O jogo, construído em parceria entre os grupos de pesquisa das professoras Rosa Maria Godoy, da Escola de Enfermagem da USP, e Maria Raquel Pires, da Universidade de Brasília (UnB), foi desenvolvido com foco em pessoas que atuam no atendimento de mulheres em situação de violência. Para compreender sua capacidade de reflexão, Violetas foi aplicado com profissionais das unidades da Casa da Mulher Brasileira de Brasília, Campo Grande e Curitiba.

A colaboração e cooperatividade são partes essenciais no jogo. O próprio tabuleiro é o inimigo, não os outros participantes. Por isso, os jogadores precisam trabalhar em equipe para impedir que a violência se alastre, o que configura Violetas como um jogo de estratégia além de acertos e erros.

“Os participantes não conseguem jogar individualmente. Em algum momento, um movimento do tabuleiro vai forçá-los a trabalhar em equipe e agir em rede. Ou todos ganham ou todos perdem”, explica Fornari.

O tabuleiro é dividido entre as regiões do Brasil, com cada cidade identificada com nomes de mulheres. Para iniciar, são colocadas 10 peças “violência” no tabuleiro, que os jogadores precisam cercar com movimentos das cartas-personagens: Educadora(or)/Pesquisadora(or); Integrante de políticas públicas/Profissional da saúde; Operadora(or) de direito; Cidadã(ão) no movimento de mulheres.

Cada carta-personagem de Violetas possui uma habilidade especial no tabuleiro (Crédito: Laura Raffs)

Em cada jogada é necessário que respondam uma pergunta, objetiva ou não, sobre violência de gênero a partir de cenas de filmes, parte responsável por gerar a reflexão. Caso a pergunta seja respondida corretamente, os participantes ganham uma peça capaz de cercar a violência, se o contrário acontecer, a violência se alastra pelo tabuleiro com uma nova peça. Para vencer o jogo, os participantes precisam conseguir os quatro tokens – Redes, Voz, Luz e Acolhida -, adquiridos quando cercada a violência ou com quatro cartas cine-cidades e “Violeta Cidadã”.

Além das regras básicas, o jogo conta com a “Carta Omissão”, sorteada de uma espécie de “sorte e revés”, ou seja, ela não pode ser controlada, característica que confere ao jogo um aspecto da realidade, já que a violência nem sempre pode ser detida. A carta possui uma forma de violência presente na sociedade marcada pela invisibilidade, como cantadas que mulheres sofrem na rua ou letras de músicas, que permite que a violência se alastre pelo território.

Carta Omissão e Violeta Cidadã compõem o “sorte e revés” do jogo (Crédito: Laura Raffs)

Segundo a pesquisadora, o jogo foi criado como uma forma lúdica de se discutir a violência de gênero, com perguntas sobre temas sociais, legislativos e cenas cotidianas. A partir de filmes famosos que se entrelaçam com o tema, as discussões com os profissionais se torna mais elucidativa. Dessa forma, Violetas é capaz de tratar de um tema difícil por uma ótica diferenciada e sutil, já utilizada pela orientadora Rosa Godoy em aulas com estudantes da graduação e pós-graduação.

“Juno” e “Além da liberdade” são exemplos de filmes presentes em Violetas (Crédito: Laura Raffs)

Fornari ainda afirma que, se for comprovado o potencial educativo do Violetas, seu desejo é disseminar o jogo para os serviços como uma forma de capacitação e momento de discussão entre os profissionais, além de verificar sua aplicabilidade com adolescentes.

A pesquisa já aponta para resultados positivos: “os profissionais para quem aplicamos o jogo contaram que foi benéfico para ultrapassar os limites de cada área. Foi um momento em que a psicóloga pode conhecer o trabalho da investigadora, por exemplo”, esclarece.

Novas perspectivas

Os trabalhos de Lucimara Fornari não pretendem parar nessa iniciativa. O grupo de pesquisa da Escola de Enfermagem, em parceria com o grupo de pesquisa da UnB, está desenvolvendo um jogo de cartas, o “Vidas Violetas”, que poderá ser jogado por qualquer pessoa, não apenas os profissionais, o que permite a expansão da discussão de violência contra a mulher e a conscientização da população.

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