Laboratório melhora a aprendizagem infantil através de jogos

Participando de sessões monitoradas, as crianças são incentivadas a superar suas dificuldades. Imagem: Ana Lúcia Petty/Leda

Reunidas em grupos de até dez integrantes, crianças participam de oficinas de uma hora de duração, ao longo de três semestres, nas quais são convidadas a resolver desafios lógicos, que envolvem jogos de tabuleiro e outras atividades pensadas visando a construção de recursos que permitam superar os problemas escolares.

Composto por docentes, técnicos, alunos de graduação, pós graduação e também colaboradores, o Laboratório de Estudos sobre Desenvolvimento e Aprendizagem (Leda) fornece, há mais de trinta anos, atendimento para crianças do Ensino Fundamental I, geralmente na faixa etária dos 9 ou 10 anos, que enfrentam complicações na vivência escolar posterior a alfabetização.

Fundado na década de 1990, o Laboratório de Psicopedagogia (LaPp) foi criado com o objetivo de auxiliar crianças com dificuldades escolares, tanto de aprendizado quanto comportamentais. Através do programa de apoio psicopedagógico para aprendizagem escolar, o laboratório realizava oficinas de jogos para as crianças e também para professores da rede pública e particular, capacitando docentes e discentes simultaneamente. Em 2010, após mudanças em sua coordenação, o LaPp se associou ao Laboratório de Estudos sobre Desenvolvimento e Aprendizagem (Leda), deixando de oferecer o serviço aos professores para focar no auxílio às crianças e também em atividades de produção de pesquisas, privilegiando não apenas a extensão acadêmica, mas também o âmbito científico.

Para Ana Lúcia Petty, técnica do Leda, um destaque dessas oficinas é o atendimento coletivo: “Geralmente os atendimentos em clínicas são individualizados, focados especialmente com as questões mais particulares da criança. Já no laboratório, o convite de jogar é um convite de socialização, de descentração, porque a criança tem que conectar com outras crianças, se envolver com regras e com diferentes desafios”.

Conforme explicitado em artigo publicado na revista Cultura e Extensão, a inspiração teórica do laboratório fundamenta-se, sobretudo, nos estudos do psicólogo Jean Piaget. De acordo com esse teórico, os seres humanos possuem “estruturas mentais do pensamento”, que se relacionam com o modo de pensar o mundo e a si mesmo, e são desenvolvidas ao longo da vida por meio de interações sociais capazes de provocar a tomada de consciência das ações, sendo esse despertar do consciente o motor para o desenvolvimento da inteligência.

Partindo, então, desses princípios, o Leda desenvolveu um “programa de intervenção”, metodologia na qual mediadores acompanham as oficinas, prontos para intervir de maneira a criar situações-problema, desafiando as crianças e as incentivando a buscar soluções. “É uma intervenção que coloca a criança para pensar, para liderar e ser protagonista desse trabalho de superar alguma coisa. Para nós, não interessa somente se ela supera ou não, mas como ela faz para buscar superar”, explica a professora Maria Thereza Costa Coelho de Souza, coordenadora do laboratório, reforçando a importância dos ensinamentos de Piaget. “Ele sempre recomendou que o melhor meio para as crianças construírem conhecimento seria elas ficarem curiosas em saber. Então não damos as respostas, tentamos deixá-las curiosas para melhorarem”.

Mais do que ensinar a jogar bem, o laboratório busca reviver nas crianças o gosto pela aprendizagem. Imagem: Ana Lúcia Petty/Leda

Sem fazer uso de critérios de exclusão, o Leda recebe crianças com os mais diferentes tipos de dificuldades, buscando auxiliá-as a evoluir de um quadro de instabilidade e insegurança para um momento em que o que foi aprendido através dos jogos possa ser aplicado em outros cenários, consolidando assim o entendimento de como enfrentar desafios. Para tanto, trabalham durante os três semestres com “quatro momentos do jogar”, que percorrem a apresentação das regras, a construção de estratégias por parte das crianças, a intervenção dos adultos para gerar a tomada de consciência e, finalmente, a generalização dos progressos para outros contextos. Tudo isso, sem deixar de valorizar tanto a inclusão de todos os participantes, quanto suas individualidades.

Além disso, o laboratório possui três pilares, consolidados a partir da análise das próprias oficinas. Eles indicam que a aprendizagem e o desenvolvimento não se resumem ao jogo em si, mas sim que este é um meio para que as crianças “consigam fazer a passagem do que ocorre com eles jogando para a vida”, explica Ana Lúcia. Há também uma interdependência entre jogo e jogador, cuja observação permite aos mediadores reunir dados a respeito da criança e de seu modo de raciocinar. Já o terceiro pilar trabalha com a dimensão lúdica dos jogos, valendo-se do gosto infantil pelo jogar para fazer uso de sua ludicidade em circunstâncias que ultrapassam o momento do jogo.

Atuando diretamente em prol de melhorias que beneficiarão a experiência educacional das crianças, tanto técnica quanto coordenadora percebem o programa como um reforço à atividade escolar, e não rival. “A ideia não é competir com a escola. É um trabalho complementar. Então conversamos muito com professores, coordenadores, as próprias famílias, para termos um seguimento também, sobre os efeitos do programa. Saber como a criança funciona na escola também é bom pra gente, ajuda a planejar as intervenções”, diz Ana Lúcia. Ambas reconhecem, porém, a existência de diferenças entre os dois ambientes, como fica claro na fala de Maria Thereza: “Quando falamos que aqui é diferente do ambiente escolar, não é no sentido de criticar por si só, mas por ser outro contexto, talvez bem privilegiado, com menos crianças, o que possibilita que a gente possa usar outros métodos”.

Recentemente, após um aumento no número do atendimento à crianças com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), a equipe do Leda tem se dedicado a estudar a neuropsicologia, numa tentativa de compreender como o jogar pode auxiliá-las a desenvolver melhor domínio de aspectos como a flexibilidade cognitiva, memória operacional e controle inibitório.

O Laboratório de Estudos sobre Desenvolvimento e Aprendizagem está localizado no bloco D, sala 251, do Instituto de Psicologia da USP. Para inscrições no programa e demais informações, o telefone é (11) 3091- 4172. No momento, são oferecidas duas oficinas por semana, às terças a tarde, das 14h às 15h, e às quartas pela manhã, das 10h às 11h.

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