Águas do Rio Tietê perdem qualidade no interior paulista

Entre alguns parâmetros, região metropolitana de São Paulo apresenta estabilização nos níveis de poluição. Já em cidades menores, a situação é controversa

Vista aérea da Marginal na capital paulista - Foto: Reprodução

Na capital paulista, o cheiro que atravessa a Marginal marca a passagem: ele vem do Tietê, principal rio do estado e em situação de poluição aparente. Nos últimos anos, os níveis de qualidade da água na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) se estabilizou. Avançando para o interior, o efeito inverso acontece próximo a cidades como Campinas ou Jundiaí: o aumento populacional e a industrialização podem influenciar nos índices de qualidade do rio. 

Pontos de coleta – Mapa construído por Sammila no QGIS utilizando as coordenadas da CETESB.

É o que afirma o estudo de Sammila Abdala, que defendeu na Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP uma dissertação sobre a evolução da qualidade das águas do rio Tietê entre 1986 e 2017 — e seus fatores de influência. No total, foram 25 pontos estudados do rio, e os dados coletados são da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (CETESB).

O caminho das águas

Ao contrário da maioria dos rios, que desaguam no mar, o curso do Tietê parte para o interior, até desaguar no rio Paraná. Por isso, a poluição da capital influencia na qualidade das águas ao avançar para o interior.  

Mas três cidades demonstram, na análise de Sammila, influência na piora de qualidade do Tietê: Sorocaba, Campinas e Jundiaí. Os principais rios dessas regiões – Jundiaí, Sorocaba e Piracicaba – fazem parte da Bacia Hidrográfica do Tietê e desaguam na mesma.

Para a pesquisadora, dois fatores principais explicam o aumento de poluição nessas áreas: aumento populacional e industrialização. “Nessas cidades, esse processo é parecido com o que ocorreu em São Paulo anos atrás”, comenta.

“Indústrias poluem muito, assim como a utilização de fertilizantes na agropecuária. Os poluentes passam para o rio e pioram a qualidade da água. Mas é preciso fazer um estudo mais aprofundado sobre uso e ocupação do solo”. 

O aumento da população impermeabiliza o solo, diminui a cobertura vegetal e gera demanda de habitação e infraestrutura de saneamento — quanto mais pessoas, maior é a necessidade. “O crescimento populacional tem relação direta com aumento da poluição, isso não é novidade”. 

Em Campinas, que registrou o terceiro maior PIB do estado em 2016, o censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2010 contou um milhão de habitantes. Nove anos depois, o número estimado pelo instituto gira em torno de 1,2 milhão. Para onde vai o lixo e o esgoto de quem chegou à cidade nesta década?

Voltando para os trechos finais do Tietê, o resultado é otimista: “ele se regenera”. Ela conta que até atividades de lazer, como a pesca, são comuns em alguns pontos.

Sammila realizou a série temporal com os mesmos parâmetros utilizados pela CETESB. São medidas orgânicas, que expressam poluição proveniente de esgoto sanitário, industrial e fertilizantes usados em plantações, como oxigênio dissolvido, demandas químicas e bioquímica de oxigênio, além de nitrogênio, amônia e fósforo totais. 

O oxigênio dissolvido em maior quantidade simboliza melhor qualidade da água, enquanto os outros parâmetros sugerem que mais poluentes estão afetando o ponto do rio avaliado. 

E se eles revelam piora em cidades médias, em São Paulo, a conclusão é outra. Pelos parâmetros escolhidos, os dados da CETESB revelam que a tendência é a estabilização da qualidade. 

Curso do rio. Foto: Sammila Abdala com dados da DAEE

Sammila atribui esse fator a alguns projetos de saneamento realizados na capital e região. E considera que os resultados poderiam ser melhores. “Há muitas obras de saneamento [como o Projeto Tietê]. Mas, em números absolutos, [a situação] não melhorou por causa do crescimento populacional rápido e desordenado”, avalia. “Entender a dinâmica populacional e o uso e ocupação do solo de determinada região é fundamental na gestão da qualidade das águas da mesma”, conclui.

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