Bullying está ligado a baixo desempenho escolar de vítimas, agressores e testemunhas

Diversos estudos apontam para uma estreita relação entre baixos níveis de ensino-aprendizado e o fenômeno de violência entre estudantes

Problema muito negligenciado nas escolas brasileiras. Foto: Esi Grünhagen

Por Daniel Miyazato | danielmiyazato@gmail.com

O bullying sempre existiu, o interesse pelo tema, no entanto, passou a se consolidar no Brasil nas últimas duas décadas. Estudos recentes apontam que o fenômeno guarda relação com baixo desempenho estudantil, podendo culminar em desvinculação da escola. Apesar dos esforços para combatê-lo, como a Lei anti-bullying, em vigor desde fevereiro de 2016, o país ainda precisa capacitar os profissionais de ensino a lidar com a questão.

As pesquisas sobre esta violência entre pares, repetitiva e em desequilíbrio de poder, tiveram início com o professor de psicologia norueguês Dan Olweus, na década de 1970. Desde então, seus trabalhos são considerados referência na área. No Brasil, como esclarece o doutorando da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP-USP), Jorge Luiz da Silva, os estudos começaram timidamente no final da década de 1990 e início dos anos 2000. Porém, apenas a partir de 2010 houve um crescimento no número de pesquisadores dedicados à questão. “Temos apenas três pesquisadores com uma trajetória mais consolidada sobre o bullying. As professoras Carolina Saraiva de Macedo Lisboa, da PUCRS, e Marta Angélica Iossi Silva, da USP, e o professor Lélio Moura Lourenço, da UFJF”, enumera Silva.

Por conta das pesquisas sobre o bullying serem relativamente recentes no país e do baixo número de investigadores especializados, trata-se de um problema pouco compreendido nas escolas brasileiras. Apesar dos estudos existentes serem suficientes para a capacitação dos profissionais pedagógicos, ainda é difícil eles terem acesso a este material, seja por políticas públicas ineficientes, seja pela carga horária de trabalho excessiva da maioria dos professores.

“Existem diversos estudos que atestam que os professores não têm um domínio teórico para saberem quais as características, quem são os participantes, o modo como o bullying ocorre e como ele pode ser prevenido pela escola”, pondera o pesquisador da EERP. “Nem sempre os professores conseguem distinguir uma violência de uma brincadeira e, às vezes, nenhuma providência é tomada ou não há uma articulação entre os profissionais da escola no sentido de haver uma continuidade na intervenção. Muitas vezes, as famílias não são incluídas ou são chamadas apenas para serem responsabilizadas, mas não são propostas parcerias ou orientação para resolução do problema.”

Em novembro de 2015, a Lei Nº 13.185, conhecida como Lei anti-bullying, foi sancionada. Dentre suas diretrizes, está a capacitação dos docentes e equipes pedagógicas, com a promoção de discussões sobre o bullying e a disseminação de informações e orientação para as famílias e a sociedade como um todo. “É um marco, porque é uma oficialização, um reconhecimento de que existe um problema”, considera  Jorge Luiz da Silva.

Gráfico retirado da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2015

Consequências da violência

Os problemas relacionados ao bullying são muitos. Desde questões psicológicas, como insônia, ansiedade e depressão, até problemas comportamentais, como isolamento social e consumo de álcool e outras drogas. O recente artigo Desempenho escolar e bullying em estudantes em situação de vulnerabilidade social, do número 27 do Journal of Human Growth and Development, uma publicação da USP, trouxe mais evidências a respeito das consequências dessa violência para vítimas, agressores e testemunhas.

O texto traz os resultados de uma pesquisa feita em escolas públicas da região metropolitana de Florianópolis, Santa Catarina. Contou com a participação de 375 crianças e adolescentes, entre 8 e 16 anos. Os números mostraram que os estudantes que disseram ter tomado parte em alguma situação de violência, seja ativa ou passivamente, têm os níveis mais baixos de desempenho nos três fatores analisados, escrita, leitura e aritmética.

O artigo, de autoria da doutora Marcela Almeida Zequinão, da Universidade do Minho, de Portugal, cujo um co-autores foi Jorge Luiz da Silva, destaca que, de crianças a adolescentes meninas, há uma melhora no desempenho, o que, por outro lado, indicaria uma maior estabilidade no baixo rendimento dos meninos ao longo dos anos. Uma característica preocupante, segundo o estudo, dado as evidências científicas que relacionam trajetórias escolares ruins com problemas comportamentais e evasão escolar.

Zequinão aponta, ainda, que não é possível estabelecer relações de causa entre as notas baixas dos estudantes com o bullying. Não se pode dizer qual fenômeno acontece primeiro. “O mais importante, contudo, é a sinalização de que as crianças e adolescentes com baixo desempenho, além de estarem sujeitos ao enfrentamento de problemas na escolarização, em decorrência de dificuldades na aprendizagem, como, por exemplo, a desvinculação e a evasão escolar, também podem se envolver em problemas comportamentais, como a prática de agressões”, sublinha o artigo.

A amostra do estudo se concentrou em crianças e adolescente de condição socioeconômica desfavorecida. No entanto, o bullying é um fenômeno encontrado tanto em escolas públicas e privadas do Brasil. Como apresentou a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) de 2015, feita pelo IBGE, há pouca diferença entre os percentuais de estudantes que afirmaram ter sido agredidos física ou verbalmente nos últimos 30 dias, de escolas públicas 7,6% e privadas 6,5%.

Trata-se de um problema, de fato, global. O fenômeno do bullying é percebido tanto em países desenvolvidos quanto em desenvolvimento. No Brasil, Jorge Luiz da Silva atesta que “ele ocorre em maior quantidade nas salas de aula. Essa é uma característica própria da nossa realidade que denota que os professores ou possuem dificuldade para identificar as agressões como bullying (devido à natureza oculta da maioria das agressões e questões de formação/domínio teórico do fenômeno) ou então que não tomam as providências necessárias quando identificam as agressões ou que as intervenções realizadas não sejam suficientes ou adequadas à interrupção das agressões.”

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