Pesquisa examina a visão quilombola sobre as escolas

De acordo com a tese, a perspectiva da conquista de direitos é determinante na maneira como a educação é percebida por essas comunidades

A escola Maria Antonia Chules Princesa, estudada na pesquisa, está situada no quilombo André Lopes, e recebe estudantes de seis outras comunidades quilombolas. Foto: Governo do Estado de São Paulo

Política e educação são temas de muito interesse para o pesquisador Mauro Cordeiro e os quais ele leva consigo desde a graduação. Por isso, em sua tese de doutorado, em processo de finalização na Faculdade de Educação da USP, ele optou por estudar o modo como as comunidades quilombolas percebem e situam a escola em uma perspectiva da conquista de direitos. “A minha hipótese é que eles querem escola para fazer valer direitos que são comuns às lutas deles, como os étnicos, territoriais, culturais e vários outros, por meio da realização do direito à educação” pontua o pesquisador.

No seu processo de estudos, o doutorando realizou viagens a campo em seis escolas municipais e uma estadual situadas em seis quilombos do município de Eldorado, no Vale do Ribeira, estado de São Paulo. Permanecendo na região durante os meses de maio e novembro de 2016, ele se inseriu na vida da comunidade e vivenciou o modo como se dava a luta pelos direitos e a posição das escolas, tanto perante as famílias como aos próprios funcionários do sistema educacional.

Neste sentido, Cordeiro notou, primeiramente, que “para os quilombolas, é muito forte esse entendimento dos direitos”, a eles reconhecido desde a promulgação da Constituição Federal de 1988. Além disso, percebeu que, mesmo existindo lutas distintas e simultâneas, todas derivam de um mote principal, que é a “titulação total dos territórios e regularização fundiária”. De acordo com o pesquisador, as histórias dos quilombos são, em grande parte, “histórias de lutas, de resistências por viver, de certa forma, na ausência do Estado”.

Já no que diz respeito ao lugar da escola dentro das comunidades, Cordeiro conversou com membros das associações quilombolas, professores, coordenadoras, diretoras e funcionárias das escolas pesquisadas e com alguns estudantes e suas famílias, para entender qual era o interesse destes perante a educação e o que desejavam da escola. Disso, o doutorando encontrou três tipos de opinião, sensivelmente distintas: a primeira, majoritária e expressada geralmente por lideranças “mais antenadas no debate sobre política educacional”, pressiona para que as escolas apliquem as Diretrizes Curriculares para a Educação Quilombola e passem a realizar uma educação diferenciada, que leve em consideração os direitos da comunidade, “deixando de ser uma escola comum” e atendendo adequadamente às demandas desta população; a segunda, por sua vez, “quer que a escola faça bem o que ela faz”, ou seja, que ensine não só os conhecimentos comuns, mas também, assuntos particulares, como a história do quilombo e as maneiras de se organizar, ser e fazer próprias àquele povo. Por fim, a terceira opinião, minoritária, acredita que a escola “não adianta nada”, porque após se formarem, os alunos partem para as cidades em busca de emprego e deixam o quilombo para trás.

O quilombo André Lopes foi um dos focalizados no estudo. Foto: Mauro Cordeiro

Cordeiro percebeu, ainda, que, independente do pensamento que carregam acerca da educação, todos querem, antes de tudo, “que a escola se transforme”, processo que deve ser iniciado com uma integração efetiva entre esta e a comunidade. Para o pesquisador, existe uma enorme tensão entre “aquilo que o sistema escolar impõe que deve ser ensinado e aquilo que as pessoas elegem em suas necessidades de aprendizagem” — ou seja, entre as práticas educacionais que acontecem fora da escola e as que ficam restritas aos muros da instituição — porque não existe uma participação ativa dos quilombolas nos planejamentos educacionais. Assim, para a comunidade, é essencial que a escola os ouça e alcance consensos na tomada de decisões, algo que está garantido pelas Diretrizes Curriculares para a Educação Quilombola.  

Além disso, segundo Cordeiro, não são apenas os quilombolas que desejam uma transformação da escola: todos esses anseios são apoiados por setores administrativos, tanto federais, por meio do Ministério da Educação e de secretarias como a Secadi (Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão) e a Seppir (Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial), quanto estaduais, com, por exemplo, o Núcleo de Inclusão Educacional da Secretaria Estadual de Educação de São Paulo. Porém, a forma de elaboração de políticas e programas naqueles setores não atingem às escolas devido a um “racismo institucional”. “Há uma distância muito grande entre as escolas e o que é planejado nas instâncias superiores, que é, em parte, relacionada a esse racismo”, explica. “É uma ignorância ativa, total e eficaz, e acho que isso é um impeditivo fortíssimo”.

De acordo com Cordeiro, por fim, tudo se resume à vontade dos quilombolas de se opor a “um padrão perverso”, que tenta homogeneizar o etnoconhecimento branco e manter inviabilizada a história quilombola e de outros povos. “Eles querem ser reconhecidos e querem desenvolver a região, em um processo que tenha o jeito deles e respeite as suas tradições,” revela. “Conheci uma riqueza extraordinária, não só na macropolítica, mas também com as pessoas. Acho que eles têm muito para ensinar para todos nós”.

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