Estudo de fósseis de molusco revela mudanças no mar durante os últimos milênios

Registros do litoral brasileiro indicam alterações de nível do mar e suas propriedades físicas

Cabo Frio (RJ) foi um dos locais do estudo. Imagem: Reprodução (Paulo Henrique Cardoso/G1).

O nível do mar diminuiu e suas águas sofreram um resfriamento nos últimos milhares de anos. Essas afirmações são defendidas no projeto de mestrado de Thiago Toniolo, da USP, Vermetídeos fósseis como indicadores da variação do nível relativo do mar e de possíveis alterações na circulação costeira no Holoceno ao longo do litoral brasileiro. Ele estudou colônias de vermetídeos fósseis — moluscos de concha espiralada de vida fixa no costão rochoso à beira mar  datados da época geológica mais recente, o Holoceno — em diversas localidades do Sul e Sudeste brasileiro. As colônias se espalham em uma faixa vertical um pouco abaixo do nível do mar. Com um tripé topográfico e régua, foi possível medir a diferença de altura em metros entre as colônias fósseis e os agrupamentos de organismos vivos atualmente em 74 amostras.

Após o nivelamento e datação dos fósseis por Carbono 14, o pesquisador criou uma curva de variação de nível relativo do mar nos últimos 6,6 mil anos e concluiu que nos últimos 5,5 mil anos aproximadamente, houve uma tendência de diminuição do nível do mar a partir de uma altitude média de cerca de 3,3 metros até o nível atual.

Gráfico de curva para variação do nível do mar nos últimos 6,6 mil anos. Imagem: Thiago Toniolo

A pesquisa também contou com análises químicas em mais outras 29 amostras, agora de todo o litoral brasileiro. As conchas são de carbonato de cálcio e contêm isótopos de oxigênio, de carbono e também elementos traços (em pequenas quantidades). A concentração dos isótopos e dos elementos nessas conchas é um indicativo de parâmetros físicos da água do mar quando elas se formaram como, por exemplo, a temperatura e a salinidade. As mudanças nas composições químicas e isotópicas das conchas analisadas apontam para uma tendência de resfriamento da água costeira a nível regional. Tal resfriamento pode ter sido causado devido influência da intensificação da corrente costeira do Brasil, que vem da foz do Rio da Prata, no Uruguai, até o litoral de São Paulo, trazendo águas mais frias.

Esse resfriamento pode também ser a explicação para o desaparecimento ou redução da espécie de vermetídeo ao longo do litoral. Atualmente, eles são raramente encontrados vivos a sul de Cabo Frio (RJ), enquanto os fósseis são abundantes até o sul de Santa Catarina. “Acreditamos que o desaparecimento desses gastrópodes no sul do Rio de Janeiro até o sul de Santa Catarina pode ser devido a esse resfriamento da água indicado pela mudança da composição química das conchas”.

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