A expressão cultural das periferias brasileiras

O funk atrai muitas pessoas aos bailes. Foto:Divulgação/Marcos Samerson

Por Ana Carolina Pinheiro de Sousa Cipriano, Bruno Menezes Baraviera, Gabriel Lucas Bastos Neves, Maria Carolina Soares Cabral Santos e Pedro Gabriel Castardo Guido Pereira

O funk, gênero altamente popular no Brasil na atualidade, surgiu de uma maneira bem diferente de como se apresenta hoje. Considerado “irmão” ou “primo” do hip hop e do soul, ele é um produto da ascensão do movimento negro nos Estados Unidos entre as décadas de 1960 e 1980. Nessa época, a luta pelos direitos civis encontrava-se em plena ebulição com Martin Luther King, líder mais conhecido do movimento, Rosa Parks, que desafiou a política separatista do Apartheid ao negar o lugar em um ônibus a um homem branco, entre vários outros, que aumentaram a discussão sobre a importância dos negros e de sua cultura na sociedade americana.  

Por conta disso, a visibilidade dos moradores dos chamados “guetos”, principalmente do Bronx, de Nova York (EUA), foi ainda mais ampliada pelas suas músicas e danças, as quais, gradativamente, foram se incorporando à cultura hegemônica estadunidense. Antes do funk e do hip hop, gêneros como jazz e rock, também originários de grupos marginalizados, já haviam ganhado notoriedade, ajudando nessa inclusão na cultura hegemônica. Dessa forma, com o contexto da influência do país nas nações latino-americanas na Guerra Fria, tais ritmos musicais foram incorporados a essas sociedades.

No Brasil, ocorreu uma grande adaptação para a realidade local. A ideia de resistência e de representação de uma realidade comumente ignorada pela mídia ainda persiste, mas a sonoridade foi bastante alterada.

Da periferia para o mundo

Foi na década de 80 que o país passou a ter maior contato com o funk mais parecido com o que ouvimos até hoje. Com o surgimento dos primeiros bailes, organizados por produtoras como a Furacão 2000, o gênero não demorou a se tornar popular. Esse reconhecimento se tornou ainda mais evidente ao passo que sua vertente carioca foi tomando formas particulares, com letras já em português e após influências de um novo ritmo estadunidense, o Miami Bass, com batidas mais agitadas. Nos anos 80, ele falava muito sobre a realidade das comunidades, o que mostrava uma relação bem forte com a periferia desde seu início.

Com o passar do tempo, o funk se tornou, para muitos jovens, uma oportunidade de ascensão social e, dentro dessa nova perspectiva, muitos MCs passaram a cantar sobre seus estilos de vida e sua condição financeira pós-sucesso. “O funk sempre foi uma porta para aquelas pessoas que não puderam ter oportunidades na vida, existem muitos funkeiros bons que ainda não foram revelados”, comenta Valesca Popozuda em entrevista à Agência Universitária de Notícias.

Desde 2008, o chamado “funk ostentação” faz parte da cena do ritmo em São Paulo, principalmente na região metropolitana e na Baixada Santista. A música passou a ser uma forma de se expressarem e cantarem sua realidade, que, com a fama, passa a ser regada a bebidas de alto custo, carros luxuosos e outros objetos de valor. O estilo passou a ter maior relevância após 2011, chegando a níveis nacionais e internacionais. No ano de 2012, por exemplo, três dos dez vídeos mais vistos no Youtube Brasil eram músicas do gênero (Plaquê de 100 do MC Guimê, Onde eu chego paro tudo do MC Boy do Charmes e Top do Momento do MC Danado).

O pesquisador Tiaraju D’Andrea, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP estudou mais a fundo sobre tais expressões culturais das comunidades e traçou um histórico sobre como ocorreram essas manifestações culturais, principalmente na parte musical. Seu estudo apontou que “a produção de cultura na periferia sempre existiu, só que hoje ela está muito mais visível”.

Ao analisar a fundo os gêneros musicais que se desenvolveram nas regiões periféricas, como o rap, o samba e o próprio funk, entre outros tipos de arte, a pesquisa apontou razões pelas quais houve esse período de aumento na produção de cultura pelas periferias. São elas: a ideia de que a produção de cultura é uma forma de pacificar um contexto violento; a possibilidade de promover uma sobrevivência econômica; uma eventual participação política; e também a emancipação humana.

Principalmente os dois tópicos iniciais são muito comentados pela cantora Anitta, que também é de origem periférica carioca. Ela usa tais argumentos, com frequência, para opinar sobre o funk e defende que, graças a ele, muitas famílias podem tirar o seu sustento de forma justa e criando oportunidades de trabalho em prol daquela arte.

Ao analisar historicamente, é possível ver, de forma clara, que o gênero ultrapassou barreiras, levando a voz das periferias para outras classes sociais. Um exemplo disso é a presença de músicas do gênero em videogames como Just Dance, um dos mais vendidos no mercado. Atualmente, o funk brasileiro também se tornou conhecido no exterior, como pode ser percebido com a presença da cantora Anitta no line-up do Rock in Rio Lisboa.

Mesmo que a maior parte do seu conteúdo seja referente à vida na periferia, o gênero está sempre se renovando. E após tantas mudanças e adaptações desde sua chegada ao país, hoje talvez seja possível afirmar que o funk está vivendo o seu ápice, como o gênero musical que mais repercute no País.

Seu alcance nota-se através de uma análise quantitativa dos dados das plataformas em que o gênero é reproduzido. A rapidez com que são lançadas novos vídeos e músicas, fazem com que o gênero marque presença constante nos rankings e playlists organizados pelos serviços de streaming.  

Um levantamento feito pelo Spotify – um dos serviços mais utilizados no mundo – mostra que desde 2016 o consumo do gênero fora do país cresceu mais de 3.000%, enquanto no Brasil esse crescimento passou de 4.000%. A plataforma desenvolveu uma espécie de mapa de temperatura interativo que mostra, a partir de 2016, os locais onde mais houve crescimento no consumo das músicas.

A presença do funk no dia a dia brasileiro é muito visível. Basta checar alguns dos rankings da plataforma e perceber que o ritmo diariamente se reafirma como gênero musical e como parte da cultura brasileira. Em 26 de junho, a playlist Top 50 Brasil tinha quatro funks entre as dez mais tocadas, dentre elas Amor Falso, Din Din Din, Só Quer Vrau e Fuleragem. Os funks Din Din Din e Amor Falso também estavam, no mesmo dia, no ranking 50 Virais Brasil.

O ritmo também esteve presente em rankings de outras plataformas. No mês de maio, por exemplo, Jojo Maronttinni, dona do sucesso Que tiro foi esse, MC Loma e as Gêmeas Lacração, que estrearam no Carnaval deste ano com a música Envolvimento, e Nego do Borel estavam entre os 10 artistas brasileiros mais tocados do site. No iTunes, Só Quer Vrau e Papum estavam entre as mais acessadas. No aplicativo Shazam, Amor de Verdade e Indecente estavam entre as mais ouvidas, sendo que, em junho, o último lançamento de Anitta continuava no topo das paradas.

Essa popularização mostra-se evidente não apenas no Brasil, estando presente também em playlists e rankings internacionais. Segundo o Spotify, depois dos brasileiros, Estados Unidos, Portugal, Argentina, Paraguai e Reino Unido são os cinco países que mais consomem o ritmo no mundo.

Um dos motivos para o funk ter conseguido atravessar fronteiras e estar chegando a culturas cada vez mais distantes, está relacionado com a parceria com artistas internacionais.

Anitta é um dos exemplos mais claros dessa internacionalização. Com o projeto denominado Checkmate, a carreira internacional da cantora deslanchou. Das quatro músicas lançadas, três tinham parceria com cantores estrangeiros e apenas uma é cantada em português.

A última música lançada do projeto, Vai Malandra, é a que mais tem visualizações no Youtube e foi também a responsável por abrir uma longa discussão acerca da importância do funk no Brasil e no mundo, já que debate sobre o processo de criminalização do gênero que foi proposto por setores mais conservadores da população. O clipe da música foi gravado no Morro do Vidigal e tem diversas referências às origens do funk no Rio de Janeiro, como pode ser visto abaixo:

Criminalização

Apesar desse crescimento astronômico do ritmo no Brasil e mundo afora, um dos obstáculos que o funk vem tendo que superar atualmente tem a ver com a sua criminalização. A ideia começou no início dos anos 90, quando o funk entrou na mira da mídia pela primeira vez, explica Danilo Cymrot. Ele, que é formado em Direito pela USP, analisou mais a fundo o processo de criminalização do funk em seu doutorado A criminalização do funk sob a perspectiva da teoria crítica, de 2011. Segundo Danilo, depois de um arrastão no Rio ser atribuído a funkeiros em 1992, “O funk apareceu na mídia quase sempre associado a episódios violentos, como arrastões, quebra-quebras e até assassinatos”.

Assim, iniciou-se um imaginário na população da época de que o funk pudesse incitar ou fosse propício à prática de atos violentos. Isso era e ainda pode ser problemático pois, como diz o especialista, esse gênero musical ainda é muito popular entre as classes mais baixas, principalmente entre jovens negros das favelas. Dessa maneira, o modo como a mídia trata o funk está diretamente relacionado com a visão que a população tem sobre esses segmentos sociais.

Um dos maiores argumentos utilizados pelos críticos do gênero musical nos últimos anos estava relacionado com um suposto financiamento dos bailes funk pelo crime organizado, e foi igualmente refutado por Danilo. De acordo com ele, é fato que algumas dessas festas tinham e ainda tem relação com facções criminosas e que muitas músicas fazem alusão a essas organizações e a morte de policiais. Apesar disso, o especialista reitera que não se pode tomar a parte como um todo. “Dizer que há uma associação entre funk e o crime organizado equivale a dizer que existe uma associação entre o futebol e o crime organizado, porque há corrupção no futebol ou porque há brigas de torcidas, generalização bastante injusta”.

Mas talvez a maior problemática relacionada à criminalização do funk esteja relacionada com o fato de que não é propriamente o funk a que se queiram criminalizar. De acordo com o pesquisador, muitos argumentam que a tentativa de proibir o funk seja, na verdade, uma tentativa de reprimir as classes mais baixas e as pessoas negras, que veem no funk um fator de identidade. Ele apoia essa ideia com o argumento de que não é a primeira vez na história que tentam proibir atividades intensamente relacionadas a certos segmentos sociais: “Outras manifestações culturais associadas aos negros também foram criminalizadas, como o samba, na forma da contravenção de vadiagem, a capoeira, no Código Criminal de 1890, e religiões de matriz africana, por meio do tipo penal de curandeirismo”.

O especialista também questiona as verdadeiras intenções da criminalização do funk ao relembrar as percepções da sociedade com a juventude. “Os jovens, apesar de serem as maiores vítimas da violência, são retratados recorrentemente como ameaçadores e violentos”, opina. Dessa maneira, seguindo sua pesquisa, ele vê também uma tentativa de criminalização da juventude ao impedir que se juntem para frequentar bailes funk ou outras festas. No entanto, ele faz uma ressalva, baseada em sua pesquisa, acerca dos alvos principais dessas medidas proibitivas: “O fato de batidas policiais em festas de classe alta onde se toca funk, frequentadas majoritariamente por brancos, serem bem mais raras é um indício de que não é propriamente o gênero musical que é criminalizado”.

Ser mulher no funk

Comentário recorrente é o funk ser um gênero musical “machista” e composto essencialmente por homens. Porém, como aponta a pesquisadora Izabela Nalio Ramos, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas na USP, o ritmo se encontra em uma zona mista entre o machismo e o feminismo, podendo apresentar elementos de ambos. Em sua dissertação de mestrado, Entre ‘perifeminas’ e ‘minas de artilharia’: participação e identidade de mulheres no hip hop e no funk, do segundo semestre de 2016, ela entrevistou diversas mulheres inseridas nesses dois universos, analisando suas opiniões e contribuições, que ainda reverberam na cena atual, já que, por mais que haja a inserção delas, ainda persiste o preconceito e o tratamento desigual.

Ela aponta que a inserção das mulheres de maneira mais representativa no funk se deu a partir dos anos 2000, com a disseminação do funk sensual, vertente que fala sobre erotismo, sexo e sexualidade. Nesse sentido, as mulheres reivindicam autonomia sobre o próprio corpo, como aponta a cantora Valesca: “Ser mulher no funk significa ter voz e levar o seu posicionamento para dentro dos bailes, dar voz para minorias”.

Ramos explica que, mesmo com essa maior visibilidade feminina no estilo, as mulheres ainda possuem grande dificuldade em alcançar posições de liderança e poder, sendo seu papel mais restrito a MCs e dançarinas. A maioria dos produtores e empresários do funk ainda são do sexo masculino.

Considerando essa ambivalência apresentada pela pesquisadora, o funk mostra-se, ao mesmo tempo, como machista em algumas ocasiões, como quando trata a figura feminina como objeto sexual, e com um grande potencial feminista em outras, com a maior eclosão de cantoras fazendo músicas sobre sexo, sedução e poder, temas anteriormente dominados por homens. Isso fica claro em algumas músicas do gênero, como Bang, da Anitta, que, apesar de não se encaixar mais tão completamente no estilo, ainda apresenta resquícios e heranças dele em sua musicalidade: “E pra te dominar/ Virar tua cabeça/ Eu vou continuar/ te provocando”.

No sentido oposto, Agora Vai Sentar, de MCs Jhowzinho e Kadinho, aponta uma manipulação do sexo masculino sobre o feminino com insinuações de assédio e estupro, pois a mulher referenciada na letra teria mudado de ideia sobre a relação sexual: “Você vai sentar por cima/ E o DJ vai te pegar/ Tu pediu, agora toma/ Não adianta tu voltar, menina/ Agora você vai sentar”.

Além disso, a pesquisadora ainda aponta que o funk pode ser, ao mesmo tempo, um lugar de liberdade sexual e opressão para as mulheres, já que as funkeiras que cantam sobre o tema tem seu espaço de difusão na maioria das vezes dominado por homens. Nesse sentido, o ritmo mostra-se também como uma prática oportuna para as discussões sobre gênero e sexualidade, com a presença de cantoras travestis e transgênero debatendo sobre preconceito e identidade.

Sobre a discriminação, a cantora Valesca ainda diz que não é uma preocupação para ela. “Procuro passar por cima. Se ficar dando bola para quem acha que o funk não pode sair da favela, vai ficar numa briga interminável. A resposta eu dou fazendo o meu som chegar aos lares de todo lugar.”

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