Estudo com células-tronco acende discussão sobre oportunismo na ciência

Laboratório avalia ação da célula para regeneração da retina

Imagem: Tudo sobre Células-tronco

Ao buscar estudar o uso de células-tronco nos tratamentos da degeneração da retina, o laboratório da professora Carolina del Debbio, do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP, tem focado nas limitações terapêuticas que eles apresentam hoje. Os resultados da pesquisa são promissores, mas ainda iniciais. E isso ativa o debate sobre a projeção desse potencial e como ele é aproveitado comercialmente de maneira perigosa.

A professora explica o estudo a partir dos problemas de visão, que, especificamente em relação à retina, não podem ser resolvidos pelo corpo humano. Isso significa que as células retinianas que morrem têm pouca capacidade de regeneração e, atualmente, há um número muito reduzido de terapias efetivas para o tratamento.

O problema do qual se fala é assim explicado: na retina, existem os fotorreceptores, que são neurônios responsáveis por captar a luz e transformá-la em sinal elétrico para que o cérebro entenda a imagem. Se há alguma lesão nessa célula, o paciente tem uma perda visual gradativa, podendo se tornar completamente cego. E há dois tipos de degeneração: a retinitis pigmentosa e a degeneração macular. A primeira ocorre quando os neurônios da região periférica da retina são afetados, o que gera uma condição de limitação do campo de visão. A degeneração macular é a lesão de neurônios centrais da estrutura ocular em questão, comprometendo a capacidade do olho de focar qualquer objeto.

O que se tem hoje nas ciências médicas são estratégias que tratam de retardar a degeneração celular, e garantir mais anos de visão. “Quando a pessoa tem a degeneração retiniana e começa a fazer o tratamento, ganhará alguns anos a mais de visão, mas, eventualmente, desenvolverá um quadro de cegueira, a depender da gravidade da lesão”, comenta a professora.

Comparação entre condições de visão normal, retinitis pigmentosa e degeneração macular. Imagens: Carolina del Debbio

Como se trata de algo que não tem cura, trabalhar com a célula-tronco tem como objetivo transformá-la em uma célula especializada que desempenhe a mesma função dos fotorreceptores, nesse caso. Inicialmente, é pegada uma célula de uma parte do epitélio do próprio olho. O processo de transformação consiste em, após retirada, tratar a célula em laboratório até que se torne uma célula-tronco − procedimento chamado de desdiferenciação ou reprogramação − e, depois, controlá-la para que adquira a função visada, que é a diferenciação da célula.

No entanto, apesar do tratamento ser extremamente promissor, ainda é restrito e demanda muito estudo. Nisso, Carolina atenta para a importância de se manterem os ânimos tanto em relação à divulgação científica, como a respeito de um certo oportunismo quanto à popularidade e garantia de cura que paira sobre as células-tronco. A pesquisadora pontua que é preciso ter cautela quanto a alguns produtos cuja base são, supostamente, as células. “Se você fizer uma rápida pesquisa na internet, você vai achar sabonete, pílula, secativo de espinha, comprimidos, tudo feito de célula-tronco. Não se sabe o que tem ali, é impossível saber se vai fazer bem para a pessoa, se vai fazer mal e piorar o estado dela”, comenta.

A eficiência do que se tem comprovado na ciência enquanto tratamento com células-tronco ainda é muito baixa, apesar dos resultados favoráveis. “A ideia [dessa terapia] é linda, a execução, nem tanto”, compartilha a professora. E completa que a variedade de células dificulta essa especialização. “De todas as células-tronco que forem transformadas e colocadas dentro da retina, apenas de 2 a 5% virarão neurônios capazes de substituir os fotorreceptores”, o que evidencia aquilo que ainda precisa ser aprofundado na pesquisa.

Por isso, o laboratório estuda, agora, os mecanismos que inibem a ação da célula-tronco, tendo como foco a ação dos microRNAs na interação com o objeto de estudo. Mas ainda são resultados iniciais. Uma coisa é certa: trata-se de um campo com muitas possibilidades, que pode trazer muitos benefícios para a sociedade no futuro. No entanto, é importante pontuar que “quem faz pesquisa séria sempre tem a ressalva do quanto isso já pode ser usado em clínica agora”.  E certamente se aproveitar disso financeiramente não é um bom modo de promover atenção ao assunto. “Alguém está tirando vantagem de uma pessoa que não sabe que aquilo não vai fazer o que ela espera. E tem muita gente com algum tipo de doença que não tem um tratamento eficiente que acaba comprando essa esperança.”

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