SUA LEITURA É UM HÁBITO?

SUA LEITURA É UM HÁBITO?

Se você está lendo este texto, é porque provavelmente gosta de ler e se interessa pelo assunto de alguma forma. Mas já parou para pensar nos hábitos de leitura dos demais brasileiros? Quantos livros leem e por que motivos? Como diz a expressão, ler é um hábito e hábitos são adquiridos.

Como é a leitura do brasileiro

A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil de 2016, realizada pelo Ibope a pedido do Instituto Pró-Livro, mostra que, em 2015, 56% da população era composta de leitores (em 2011 eram 50%), ou seja, pessoas que leram pelo menos um livro inteiro nos últimos três meses. Mas o índice ainda é baixo: a média é de 4,96 livros por ano, dos quais apenas dois inteiros. O restante são trechos ou leituras abandonadas. Ao todo, foram entrevistadas 5.012 pessoas.

17ª Festa do Livro, 10/12/2015. Foto: Marcos Santos.
17ª Festa do Livro da USP, em 2015 (Foto: Marcos Santos).

Há vários motivos para esse número. Um deles é a falta da influência de alguém que sirva como modelo para o interesse pela leitura. A pesquisa diz que 67% dos entrevistados não tiveram nenhuma pessoa que os incentivasse. Para os 33% restantes, a figura feminina, como a mãe, foi a principal responsável, com 11% das respostas, seguida de professores, com 7%. “O despertar do interesse pela leitura começa na infância, a família que lê para seus filhos e que tem a leitura como hábito e exemplo, que valoriza a leitura e o livro e desperta o interesse de forma prazerosa, mas não é esse o retrato da família brasileira. Temos poucos livros em casa e os pais não são leitores”, diz Zoara Failla, coordenadora da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil e gerente executiva do Instituto Pró-Livro.

Zoara também menciona a importância das escolas, porém ressalta que ela depende de muitos outros fatores, como ter um acervo que possibilite a escolha, uma biblioteca equipada e integrada com projetos de mediação de leitura, além de professores também leitores e com repertório, fator fundamental ao incentivo.

Além disso, em um mundo permeado cada vez mais pelo digital, é preciso pensar em outras saídas para criar o hábito. A professora e doutoranda em comunicação e práticas de consumo pela Escola Superior de Propaganda e Marketing de São Paulo (ESPM-SP) Andréa Antonacci destaca, por exemplo, o papel essencial de alguns youtubers na difusão da leitura com as resenhas que fazem. “A grande questão a meu ver é tentar quebrar um paradigma. Em vez de dizer que as pessoas, e em especial os jovens, não estão lendo, podemos buscar compreender como se lê hoje, considerando ainda a leitura no ambiente digital.”

Andréa, que estuda particularmente jovens de 11 a 13 anos, enfatiza ainda a cultura do audiovisual na qual estamos inseridos e como isso determina o interesse pela leitura. “Um grande desafio é justamente abrir espaço para o livro diante de tanto apelo sonoro e imagético. Outra questão é que o livro pede uma outra temporalidade. É algo mais lento, que difere da rapidez dominante nos dias de hoje.” Ainda assim, em uma pesquisa inicial em São Paulo, Andréa constatou que jovens dessa faixa etária preferem o livro impresso ao digital. “Foram bastante enfatizados a materialidade, o cheiro do livro e a facilidade de levar o impresso a vários lugares.” Na pesquisa Retratos da Leitura, essa mesma faixa etária apresentou a maior porcentagem entre os que leem por gosto, com 42% (o total de leitores que leem por esse motivo é de 25%).

Como leem os leitores
17ª Festa do Livro, 10/12/2015. Foto: Marcos Santos.
17ª Festa do Livro da USP, em 2015 (Foto: Marcos Santos).

Entre os não leitores (pessoas que não leram nenhum livro nos três meses anteriores à pesquisa), o principal motivo para não lerem é a falta de tempo (32%). Trabalho em tempo integral, o tempo que se gasta no transporte público e os demais afazeres dificultam que o hábito se crie ou se perpetue. Ainda assim, há quem faça da leitura prioridade no tempo livre. É o caso da jornalista Carla Franco, de 48 anos. “Leio sempre que posso. Se estou no transporte público, estou com um livro na mão; se estou numa fila, estou com um livro. Leio à noite, na faculdade, no final de semana. Estou sempre lendo. Não tem um momento que eu dedique à leitura porque ela está difundida ao longo do meu dia todo. Acabo lendo até no trânsito.” No que diz respeito ao número de livros, Carla está bem acima da média: lê mais de quarenta livros por ano. Sua preferência é por clássicos da literatura, mas, agora que iniciou sua segunda graduação, em letras, tem lido também livros sobre crítica literária.

Formado em farmácia-bioquímica, Felipe Wakasuqui se divide entre a leitura de livros técnicos e aquela por hobby. Tendo começado pelos gibis, seu interesse está ligado desde a infância aos pais. “Fui influenciado por encontrar meu pai em uma banca na saída da escola, onde eu ficava escolhendo os gibis que ia comprar antes de voltar pra casa. A leitura é uma amiga de infância, pois cresci lendo os gibis da Turma da Mônica e, conforme envelhecia, diversificava o que lia, lendo cada vez mais.” Felipe também é um leitor acima da média, lê de dez a vinte livros por ano.

Para quem não tem uma cultura de leitura ou não teve alguém como modelo, a televisão pode ser uma alavanca. “Muitas [pessoas] vinham atrás dos livros que apareciam mais na TV. Vinham me falar: ‘Moço, você viu aquele livro que apareceu no Faustão, no Altas Horas? Eu quero ele’”, diz Guilherme Naliato, 21. Ele, que trabalhou por três anos como livreiro, conta que foi aprendendo a identificar os gostos e perfis dos frequentadores da livraria. Como leitor, Guilherme comenta que o fato de ter trabalhado em um local cercado de livros o  influenciou muito para que lesse mais.

Andréa Antonacci destaca a cultura da oralidade, a tradição audiovisual e os ainda altos índices de analfabetismo no Brasil como determinantes para uma falha cultural no que diz respeito ao interesse pela leitura. “Acredito em um trabalho para criar uma cultura de leitura, ampliando práticas de consumo de livros, com iniciativas como a implantação de bibliotecas e livrarias e a realização de eventos literários, por exemplo. A própria comunicação no ambiente digital pode contribuir muito nesse sentido”, diz. Andrea salienta, por fim, a importância de eventos como a Festa do Livro. “Vejo com bons olhos a realização de eventos como a Festa do Livro da USP. Se a indústria livreira não movimenta milhões como a cinematográfica, sua estratégia para ampliar o consumo da leitura deve passar por iniciativas como essa”, completa.

Por Sofia Calabria

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